O grande instrutor

?Loc Green! Glide Slope Star! Set go around altitude!? Pode parecer conversa de maluco, mas estas curtas frases pronunciadas em inglês fazem parte dos callouts padronizados utilizados no cockpit das aeronaves fabricadas pela Airbus. Por serem extremamente automatizados, os aviões exigem que os pilotos falem em voz alta os comandos que estão sendo executados e, principalmente, a confirmação deles através da leitura do FMA (sistema anunciador do modo de vôo), que é exibido na tela do PFD (display primário de vôo). É uma questão de segurança de vôo. Com comandos do tipo fly-by-wire, os sidesticks não mexem nas curvas, como acontece na aviação mais antiga, em que os dois manches estão interligados entre si e com os comandos de vôo através de cabos. O sistema de aceleração automática da aeronave (autothrust) também fica na mesma posição. Ouve-se a variação de potência dos motores, mas as manetes não se deslocam. Por isso, a tripulação deve estar muito atenta às indicações dos instrumentos. Quem vem de aeronaves convencionais, estranha. E quem nunca voou em cabines dotadas de instrumentos eletrônicos de vôo do tipo EFIS, estranha mais ainda. Por isso, as companhias aéreas que operam aeronaves do tipo Airbus exigem várias horas de treinamento em CPT (cabines estáticas), incluindo sessões de free play, quando se trabalha bastante com a leitura e interpretação do FMA. Quando estiver apto, o piloto prossegue para a fase de instrução em simulador de vôo. ?À primeira vista, pode parecer um bicho-de-sete-cabeças. Mas os estudos aliados a um bom Flight Simulator ajudam bastante!?, garante Max Jablonski, instrutor de CPT na TAM Linhas Aéreas e expert em computadores pessoais. Flight Simulator? Sim, é isso mesmo. Quem nunca viu, acha que é video-game. Mas nos Estados Unidos, a própria FAA, órgão governamental que administra a aviação civil, está estudando um modo para considerar oficialmente horas de vôo realizadas em casa através do Flight Simulator, software que é fabricado pela Microsoft e que roda em computadores do tipo PC. De ?joguinho?, o programa de simulação não tem nada. O objetivo não é marcar pontos, mas decolar, navegar e pousar uma aeronave observando as regras de vôo visual ou por instrumentos e, principalmente, os limites aerodinâmicos. Se o usuário insere na programação que o vôo deve ser feito dentro das condições mais reais possíveis, o avião quebra se durante uma manobra os limites estruturais forem ultrapassados. Mas se a intenção é treinar manobras radicais, o ?piloto virtual? pode optar por voar uma aeronave acrobática em que os loopings são permitidos. Mas, em geral, quem voa o Flight Simulator está procurando treinar vôo por instrumentos. E, neste quesito, o software é o melhor do mercado. Traz auxílios de navegação (VOR e NDB) do mundo inteiro, incluindo também todos os aeroportos, com pistas asfaltadas, de terra ou de grama. O banco de dados vem da Jeppesen, conhecida internacionalmente como a fabricante das melhores cartas aéreas do mundo. Também é a própria empresa que envia, via internet, informações meteorológicas atualizadas para que o programa do FS exiba ao ?piloto virtual? as condições reais de visibilidade e ventos em rota. Se, por exemplo, na informação meteorológica da última hora (METAR) de Chicago O?Hare constar que está nevando e que a visibilidade está restrita a uma milha, o piloto terá dificuldades para pousar e decolar, tornando o vôo por instrumentos simulado ainda mais desafiador, além de ser um ótimo treino. As escolas de aviação logo passaram a notar os alunos que se destacavam por serem ?pilotos virtuais? de Flight Simulator. Um instrutor de vôo certa vez comentou que um de seus alunos havia decolado e pousado a aeronave, sem nenhum tipo de problema, logo no primeiro vôo. Perguntado sobre de que maneira havia aprendido a colocar a aeronave na atitude correta para o toque de pneus na pista, ele simplesmente respondeu: ?Ah, eu faço isso todo dia em casa no Flight Simulator?. O treinador da Microsoft ficou tão bom que passou a ser recomendado inclusive pelas grandes escolas de aviação nos Estados Unidos. A Flight Safety Academy, de Vero Beach (FL), por exemplo, oferece uma seção especial com computadores adaptados ao vôo de Flight Simulator, em sua biblioteca. O aluno escolhe o avião em que quer treinar (mono ou bimotor) e ?decola? de Vero Beach para um vôo de instrução. Cada ?cabine? vem equipada com manche e console de manetes de aceleração. Outra invenção fantástica que surgiu para tornar o treinamento através do programa Flight Simulator ainda mais valioso foi o sistema de vetoração-radar através de um controle de tráfego aéreo virtual. Os pilotos mais especializados e conhecedores das regras de tráfego aéreo e da fraseologia padrão podem voar conectados à internet, sendo monitorados por controladores de vôo virtuais que trabalham com um programa especial chamado Pro Controller. Através deste sistema, consegue-se visualizar os limites das terminais de tráfego aéreo, os aviões com a identificação padrão, altitude e velocidade e, o principal, enviar mensagens de orientação aos vôos que vão decolar, navegar ou pousar. Existem, inclusive, alguns controladores de tráfego aéreo que exercem a profissão no seu dia-a-dia e aproveitam o programa para treinar em terminais mais congestionadas, como as de Chicago e Atlanta, nos Estados Unidos. O interessante é que um controlador no Brasil pode monitorar o tráfego aéreo em qualquer parte do mundo, desde que esteja devidamente credenciado, tenha passado por uma prova de avaliação e esteja bem classificado. Por outro lado, os ?pilotos virtuais? também devem ser avaliados e são proibidos de voar fora do padrão. Para se conectar ao sistema de vetoração-radar, são utilizados outros dois programas: o Squawkbox e o Roger Wilco. Este último é muito interessante, já que o aviador usa o microfone do computador para se comunicar e é excelente para treinar fonia em inglês com americanos ou britânicos autênticos. Para conhecer melhor este ambiente virtual, vale a pena visitar as páginas eletrônicas www.vatsim.net e www.avsim.com/hangar/utils/servinfo/. É claro que os melhores adicionais para o Flight Simulator não poderiam ficar gratuitos eternamente, mesmo porque foram necessárias horas e horas de trabalho e pesquisa em frente ao computador. Hoje, o Brasil pode se orgulhar de ter alguns dos melhores ?cenaristas do mundo?. Inclusive, alguns aeroportos do exterior foram montados aqui mesmo e hoje são comercializados em larga escala, como, por exemplo, o de Haneda, em Tóquio, produzido pela empresa Worldsceneries. Ela mesmo se encarregou de desenvolver cenários foto-realísticos dos principais aeroportos brasileiros, incluindo pacotes especiais para a Amazônia, Ilha de Fernando de Noronha, Rio de Janeiro e os aeroportos de São Paulo (Guarulhos e Congonhas). Os preços variam entre 38,90 e 59,90 reais e os softwares podem ser comprados em lojas de informática ou baixados diretamente através do site www.worldsceneries.com.br. Mas para quem só precisa de cenários detalhados de São Paulo, ainda pode baixá-los sem custos através da página pessoal de Fernando Marcato, um dos melhores cenaristas freeware (produto gratuito) do Brasil. Em sua página www.marcato.tk, ele coloca à disposição dos visitantes a mais nova compilação de cenários para a cidade de São Paulo. Já os melhores aviões para Flight Simulator são todos do tipo shareware (pagos) e estão disponíveis em boa parte nas páginas www.simmarket.com e www.justflight.com. Neste site, os principais fabricantes anunciam suas novidades e as comercializam. A FeelThere, por exemplo, acaba de lançar uma versão do Embraer ERJ-145 para o FS2004, trabalho que foi elaborado durante quase dois anos. Segundo informações do grupo, o pacote inclui um modelo com quatro níveis de complexidade de cockpit virtual, incluindo painel 2D foto-realístico e sistemas totalmente funcionais (elétrico, pneumático, hidráulico, de pressurização, APU, etc.). Os motores trabalham como nas aeronaves de verdade, ou seja, através de sistema FADEC, com função ATTCS (Sistema de Controle de Aceleração Automático de Decolagem). Já o mais recente lançamento da empresa Captain SIM para o FS2004 foi o do Boeing 727. Aprovado pelos chamados ?simuleteiros?, o programa traz interior totalmente realístico em 2D e 3D (virtual cockpit). As partes externas (trem de pouso, flapes, ailerons, spoilers, leme, profundores, triquilha, porta de carga e porta de passageiros) são totalmente móveis e o ?piloto virtual? pode voar na poltrona da esquerda, como comandante, ou à direita, no acento do co-piloto. Na Simmarket, o programa do Boeing 727 está saindo por 41,69 dólares. Também vale a pena baixar as aeronaves da família Airbus A320 e A330 da Phoenix Simulation Software (PSS). Estes programas trazem cabines muito fiéis às da realidade, incluindo o sistema anunciador do tipo FMA. Para quem voa estas aeronaves ou está em fase de instrução, é um ótimo treinador. Funciona tudo mesmo. No ponto de redução de potência após a decolagem, por exemplo, o aviso de LVR CLB pisca no FMA. Ao se posicionar as manetes na posição Climb, aparecem os avisos de THR CLB e Climb (Green). O programa sai por 27,51 dólares e pode ser baixado diretamente através do website www.phoenix-simulation.com.uk. Vale lembrar que para rodar bem o FS 2004 e seus programas adicionais, é necessário ter uma boa máquina. A mais recomendada é um computador que tenha processador Intel Pentium 4, com no mínimo 40 GB de HD, memória RAM de 1 GB e placa de vídeo de 512 MB. Texto original: Robert Zwerdling

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